sábado, 12 de outubro de 2019

Coringa: O filme perturbador que todos deveriam assistir


Os minutos após eu ter assistido assistido Coringa foram provavelmente os mais frustantes, chocantes e estupefatos da minha semana. Eu só precisava de um tempo para digerir o que eu havia acabado de assistir.
Diante de toda a polêmica que sondou filme, eu me peguei pensando que tudo que eu falar sobre ele será ambivalente.
Quando li sobre todas as polêmicas envolvendo o grau de violência do filme e do fato disso ser usado como justificativa para atos de violência confesso que inicialmente eu pensei "a função do cinema não é educar. O cineastra não tem obrigação de discernir o certo do errado." afinal, isso é uma coisa que vem de berço certo? Entretanto, logo meus pensamentos acabaram me contradizendo, já que para mim o cinema sempre foi muito mais do que uma mera forma de arte, embora essa não seja sua principal função o cinema nos educa, nos molda assim como todas as experiências da vida. Ele sempre nós faz sentir algo, se você sair de uma sessão com nada além de indiferença, o filme não surtiu efeito ou sua qualidade é péssima.
Provavelmente seja por isso que assim que eu sai da sessão de Coringa eu logo pensei: "Esse é o filme perturbador que todo mundo precisa ver"


Cada vez mais obras sobre pessoas com transtornos mentais tem sido lançadas nos últimos tempos, obras essas que tem cutucado a ferida sem pudor algum, que tem nos mostrado como não só o sistema, mas também a sociedade falha com essas pessoas.
Vivemos em um mundo onde negligenciamos aqueles que são diferentes dos padrões impostos pela sociedade, onde só damos atenção devida quando atrocidades acontecem. Tratamos como monstros pessoas que precisavam de ajuda, afinal é bem mais fácil tratá-los dessa forma do que vê-los como consequência da nossa sociedade.
Quando seu mundo inteiro foi forjado em cima de dor e violência é difícil seguir outro caminho, caso não haja ajuda ou uma "luz" pra te guiar, seu ciclo de violência pode não ter fim. É assim que somos apresentados a Arthur Fleck, um homem com diversos problemas, um sonho com muita desejo de realizá-lo porém sem "sorte" e os meios para isso.
Nos primeiros três minutos de filme é difícil não sentir empatia pelo personagem de Phoenix, todo mundo já passou por uma má fase, um momento onde não importa o quão ruim as coisas estivessem você tinha certeza de que poderia piorar, e de fato piora. Até esse momento vemos um lado completamente humano de Arthur, é ai que temos um ponto de virada que nos diferencia. Se você estivesse sozinho, fosse agredido, tendo uma arma em mãos. Você revidaria ou não? Seria legítima defesa, certo? Você apenas se defendeu. Como diz a terceira lei de Newton "toda ação gera uma reação".
Essa é uma pergunta um tanto capciosa não? Se você é pacifista você talvez dirá que não revidaria, e se você é daqueles que acha que se sente mais protegido com uma arma provavelmente dirá que sim. É aí que eu te pergunto, e se no meio dessa história você acabasse perdendo o controle e matando tudo e todos que aparecessem no seu caminho.
Isso te tornaria um Louco Psicopata ou uma vítima da sociedade?
Apesar do filme de Todd Phillips ser uma obra original com inspiração em filmes do anos 70 e pequenas referências dos quadrinhos eu não pude evitar compará-lo um pouco com A Piada Mortal. Enquanto eu assistia todas as coisas ruins que levaram Arthur Fleck a se transformar no Coringa uma frase de A Piada Mortal ecoava em minha mente: "Basta um dia ruim para reduzir o mais são dos homens a um lunático." Na Animação baseada na HQ de mesmo nome o Coringa afirma que o diferencia do Batman ou de qualquer homem comum é um dia ruim, um dia em que o interruptor que "liga" a sanidade se pende para a loucura.

Arthur Fleck era um homem comum como tantos outros, tinha seus problemas pessoais e mentais como tantos e tentava se encaixar em uma sociedade que fingia que ele não existia. A única coisa que o diferencia é o caminho que ele escolheu.
Veja bem, ao dizer tudo isso sobre Arthur eu não estou tentando encontrar uma justificativa para suas crueldades, até porque fazer isso seria como tentar justificar as atrocidades de Charles Mason, Ted Bundy, Aileen Wuornos, Adolf Hitler e muitos que cometeram crimes horrendos contra a humanidade. O que eu estou tentando dizer é que é preciso ouvir essas pessoas, é preciso tentar entendê-las antes que essas coisas horríveis aconteçam, antes que um dia ruim mude o interruptor.
Se existe alguma lição pode ser tirada de Coringa certamente é a que nós precisamos continuar falando sobre transtornos mentais, não importando qual seja a forma. Seja através da arte, de manifestos, de qualquer forma. O importante é fazer com que todas as vozes sejam ouvidas e termos empatia.

"Eu demonstrei que não existe diferença entre mim e todos os outros. Tudo que se precisa é de um dia ruim. É quão longe o mundo está de onde estou: apenas um dia ruim. Você teve um dia ruim certa vez, certo?
Ah, eu sei que estou. Posso ver. Você teve um dia ruim e tudo mudou. Se vestir como um rato voador não esconde, mas grita isso."
― Alan Moore (Batman: A Piada Mortal)

segunda-feira, 22 de julho de 2019

O Labirinto de Alasca Young


Recentemente eu tive uma experiência catártica lendo o livro Quem é Você, Alasca? de John Green, e ele abalou bastante minhas estruturas. Passei madrugadas insones pensando em Alasca Young e seu "labirinto".
O Labirinto entra na vida de Alasca através de seu livro favorito: O general no seu labirinto, de Gabriel Garcia Márquez, no qual Simón Bolívar pergunta como sairia desse labirinto.
"Como sairei deste labirinto?" essa pergunta insiste em permanecer na cabeça de Alasca e de Miles praticamente todo o livro, e devo dizer que na minha também.
No livro Alasca diz que o labirinto é a vida ou a morte, e depois decide que não é nenhum dos dois, mas sim o sofrimento; é foi ai que eu comecei a indagar: o que é a vida se não um labirinto de sofrimento?, com algumas faíscas de felicidade momentânea? Acho que a realidade é que nossas vidas seriam bem diferentes, e quem sabe até mais fáceis se aceitássemos que não existe saída. Talvez nossa melhor opção seja simplesmente aceitar, e viver da melhor forma que pudermos, aproveitando cada segundo.
Talvez seja assustador pensar que a vida seja mesmo um labirinto de sofrimento, porém talvez ao mesmo tempo seja reconfortante, para dar sentido a tudo. O fato é que não importa o quanto corremos, jamais encontraremos uma saída estratégica; talvez a única saída seja aquela "rápida e direta" que Alasca acabou encontrando cedo demais. Seria ela a melhor opção? talvez ela seja apenas mais "fácil", porém não sei dizer com certeza se é a melhor, porque assim como Miles não sei muito bem o que acontece após a morte, ou se realmente acontece alguma coisa. Entretanto digo sem dúvida que prefiro viver neste labirinto a saber essa resposta.
Alguém uma vez disse que no fim o destino não importa muito, e sim a jornada; não sei muito bem o porque, mas acredito um pouco nisso.
Não importa o lugar que seu rumo irá te levar, só o que realmente importa é o que você fez durante o percurso. Se riu, se , se aproveitou, lutou, se sofreu, se chorou, se teve coragem, se foi justo, se encontrou propósito e felicidade e principalmente se viveu intensamente.
Talvez esses pensamentos sejam apenas devaneios de uma mente insone, e incrivelmente impactada pelas palavras de John Green, e que porventura tentará a partir de hoje procurar algo ainda maior e mais significativo que um "Grande Talvez".

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Entre Razão e Emoção


  Hoje eu vivi uma grande batalha interna, parte de mim só queria chorar e mergulhar fundo na tristeza que me consumia até que ela resolvesse ir embora, mas a outra parte gritava "Garota, sai dessa! Eu sei que a queda foi feia, mas a vida continua, vamos levanta! Ânimo!"
  Eu me encontrei completamente exausta; emocionalmente eu estava um caos, espiritualmente perturbada e fisicamente totalmente esgotada, me sentia como se tivesse sido atropelada por vários tratores um seguido do outro.
  Sair da cama foi o meu maior desafio, eu sabia que uma hora ou outra eu teria que enfrentar a vida de novo, mas naquele momento eu só queria ficar deitada, até que toda dor e tristeza cicatrizasem.
  Ainda não sei como, mas no fim eu acabei juntando forças e conseguindo deixar o dia seguir, com o emocional abaladíssimo, mas consegui; acho que foi uma daquelas situações em que não se sabe o quanto é forte até que precise ser.
  Acho que devo isso a garota inabalável e "emocionalmente madura" que reside no âmago do meu ser, e talvez por causa dela eu tenha aprendido a equilibrar melhor meu lado emocional com o racional. Ás vezes quando um lado anda mais abatido que o outro precisamos colocá-los em uma balança, e ao menos tentar equilibrá-los perfeitamente, não estou dizendo que é preciso deixar de lado, ou esquecer, até porque fazer isso seria como tentar parar de sentir, mas tente colocar os dois em prática ao mesmo tempo.
  Eu costumo dizer que quando a tristeza vem precisamos mergulhar bem fundo mesmo nela, entender que tá tudo bem se sentir mal às vezes, principalmente quando tudo anda dando errado, tudo isso faz parte, e só se consegue seguir em frente de vez enfrentando tudo de uma vez, porém não nego que também algumas vezes precisamos saber trabalhar a razão e a emoção, é difícil, e em todos esses meus anos de vida, eu nunca consegui completamente, porém não nego que é um exercício diário necessário. Desse jeito, sigo tentando fazer as duas entrarem em um acordo, tentando fazê-las entender que não existe isso de uma ser mais importante, ou estar mais certo que a outra, porque ambas são igualmente necessárias e fazem parte do meu ser, assim continuo tentando, se algum dia eu conseguir, aviso vocês.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Crítica: Rocketman


   Rocketman é uma carta de amor a Elton John, o filme é visualmente lindo, roteirizado quase poeticamente.
O roteiro não poupou nada, como toda boa história de um Astro do Rock mostra o lado bom e ruim da fama, ele abusa do sentimentalismo, equilibrando o tom com pitadas de comédia e muitos números musicais.
 Ele praticamente conta a história do Elton através das músicas.
E por falar em músicas Taron Egerton e Dexter Fletcher não copiaram Elton com elas, aproveitando que o próprio Elton deu total liberdade criativa para eles darem sua personalidade para as músicas, e o mais incrível é que eles conseguiram fazer isso sem alterar a alma e a identidade delas.
 Sem criar uma caricatura de Elton John, Rocketman mostra o conflito que ele tinha entre seu presente/futuro (vulgo Elton John) e seu passado (vulgo o garotinho gordinho e tímido que era Reginald Dwight), além de mostrar todo os traumas de seu passado com seus problemas familiares. 

 Taron Egerton está magnífico no papel, ele não capta os trejeitos de Elton perfeitamente, como seu alcance vocal também.
 Ele mostra Elton John como o fenômeno cultural que é, de sua ascensão à quase ruína (o ápice com as drogas e a bebida), para depois sua triunfante volta por cima.
 Rocketman celebra a vida de Elton John como artista magnífico que é, que reabriu todas suas velhas cicatrizes para que sangrassem em forma de arte, mas precisamente em forma de músicas que encantam públicos de diversas idades até hoje.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Crítica: Capitã Marvel



  Depois de 10 anos no mundo cinematográfico a Marvel finalmente lançou seu primeiro filme com uma protagonista feminina, na quinta-feira  (07/03) Capitã Marvel estreou nos cinemas brasileiros mostrando todo o poder da heroína que já foi confirmada como a mais poderosa do MCU, até agora. 
 Em Capitã Marvel a dupla de diretores Anna Boden & Ryan Fleck ousam ao fazer uma história de origem diferente, o roteiro apresenta a a personagem sem dar muito enfoque ao seu passado, sua história é apresentada através de flashbacks o público vai descobrindo o passado conforme ela própria descobre. 
 A introdução da personagem é bem explicativa, você entende bem quem ela é, o quão poderosa ela é e sua importância para os próximos filmes; o filme se autoexplica, de modo que se você for introduzido ao MCU (Marvel Cinematic Universe) por ele você não fica perdido, não é preciso ver os outros filmes da Marvel ou ler HQs para entendê-lo. 
 A lacuna que liga Capitã Marvel com os outros é preenchida e faz sentido, ela deixa uma brecha para Vingadores Ultimato, e quem sabe até para outros. 
 A história do filme é um círculo bem fechado; apresenta um problema, apresenta duas soluções para ele e dá o  livre arbítrio a Carol e sua consciência. 



Brie Larson captou bem a essência de Carol Danvers com seu humor ácido, seu jeito sarcástico e desafiador. Para quem está acostumado a ver um lado mais sereno de Brie (Ganhadora do Oscar de melhor Atriz em 2016 pelo filme O Quarto de Jack) talvez até estranhe. 
 É sempre bom ver atores e atrizes saindo da suas zonas de conforto ao interpretar personagens completamente diferentes de sua própria persona, com Larson isso fica evidente em tela; Brie que se declara uma pessoa completamente introvertida deixa claro a paixão que criou por sua Capitã e o quanto a personagem a mudou. Não é nem preciso seguí-la nas redes sociais para ver a dedicação e importância que ela deu a Carol, basta você ver uma entrevista com ela e em seguida o filme que já fica nítido o quanto de sua alma e coração ela colocou no filme. 


 Os personagens secundários são cativantes e responsáveis por humanizar a Capitã, quando a vemos com Nick Fury (Samuel L. Jackson), Maria Rambeau (Lashana Lynch) e sua filha Monica (Akira Akbar) vemos um lado mais leve e descontraído dela, é como se a a convivência com eles a tornasse menos kree e mais humana, neles está o segredo para que ela não esqueça quem realmente é, com eles ela finalmente se encontra.
 A química entre Larson e Jackson é um dos elementos que faz o filme dar certo, o bom relacionamento dos dois é inegável, tanto dentro quanto fora das telas. E por falar em Nick Fury, é completamente hilário ver uma versão mais jovial e despreocupada do personagem, trabalho que talvez em parte seja da computação gráfica, que fez um excelente trabalho rejuvenescendo Jackson, mas cuja o maior crédito pertencente ao próprio ator, por mostrar um lado inédito do personagem. 


 Quem rouba a cena em diversos momentos do filme é Goose, a gata/flerken de Carol, quando a alienígena felina aparecia em tela a risada era 100% garantida.
 A trilha sonora, assim como a de Guardiões da Galáxia, funciona como uma cápsula  do tempo nos transportando diretamente para os anos 90, o que te deixa completamente nostálgico, especialmente se você nasceu na década. Aliás, apesar de a época do filme não ser tão relevante (de modo que o filme talvez funcionasse igualmente bem, caso se situasse em qualquer outra época) é realmente divertido ver todas as referências a década de 90. 

 É quase impossível não comparar o filme com Mulher Maravilha, principalmente quando levamos em conta que ele é o único outro filme de super-heroína que temos. Assim como o filme de Patty Jenkins, ele também é um filme feminista sem levantar bandeiras diretas, ele só é feminista por ter uma mulher como protagonista e por contar a história do ponto de vida dela. A história de vida de Carol talvez atinja mais o público feminino do que a de Diana, ao menos empaticamente falando. Carol Danvers passa por situações que toda mulher já passou, ela foi ensinada a duvidar de seu potencial desde pequena, ela cresceu em um mundo machista e entrou em uma profissão masculinizada o que fez com que ela precisasse provar o seu valor em cada passo do caminho, no fim ela ela finalmente entende que só cabe a si mesma calar as vozes em sua cabeça, mostrando que sua força vem de si e que a única pessoa que ela tem que impressionar é ela mesma. 
 Talvez Capitã Marvel não tenha o grande impacto que Pantera Negra, ou até mesmo Mulher Maravilha, mas isso definitivamente não tira sua importância e legitimidade. 
 A lição principal do filme está ligada diretamente a humanidade de Carol Danvers, o que a torna humana e mantém sua conexão empática com o público é o fato de que não importa  quantas vezes ela caia, ou quantos a dirão que ela não é capaz, ela sempre irá se levantar dizendo "SIM, EU POSSO E EU VOU!"  
 Sobre o futuro da Marvel duas coisas são certas: 1º ele está em excelentes mãos e 2º Thanos realmente não tem noção do que está prestes a enfrentar. 


sábado, 3 de novembro de 2018

Bohemian Rhapsody - Crítica


  Quando o assunto cinebiografias vem à tona  polêmicas começam a surgir. O roteiro conseguirá aprofundar toda a vida da persona em si ou não? Quais partes precisam ser destacadas? E quais não precisam? 
 Entretanto, quando a persona em questão foi um dos maiores compositores/cantores do mundo, as complicações dobram. 
 Quem poderia interpretar o icônico Freddie Mercury nos cinemas? A resposta parecia estar em Sacha Baron Cohen, mas por conflitos de ideias com os membros do Queen, Cohen abandonou o projeto. Eis que surge um ator norte americano de origem egípcia chamado Rami Malek. 


 Conhecido por ganhar o Emmy de 2016 por sua atuação na série Mr. Roboto, Malek também pode ser lembrado por suas participações em Um Noite no Museu e em A Saga Crepúsculo: Amanhecer - Parte 2. 
 O filme conta a história da formação do Queen sem se aprofundar, mostrando o início de tudo até pouco antes do fim.
O roteiro apesar de destacar a vida pessoal do cantor, não se preocupa em detalhar a fundo todos seus relacionamentos amorosos, deixando claro desde o começo sua sexualidade, sem levantar bandeira alguma. (Exatamente como Freddie tratou a questão em vida.)
 O que mais é mostrado no filme é sua relação com Mary Austin, musa responsável por lhe dar inspiração para o grande hino Love of My Life, e com os outros membros do Queen em si. 


 Bohemian Rhapsody deixa claro que a existência de Freddie Mercury e da Queen dependiam uma da outra, a banda não existiria sem ele, assim como também não existiria sem Bryan May, Roger Taylor e John Deacon. Cada um foi fundamental para a banda ter o sucesso que teve. Se uma mesa tem quatro pernas, e uma de suas pernas é arrancada, é provável que essa mesa caía ou penda mais  para um lado. Assim era o Queen, uma combinação completamente única e insubstituível.
 Rami Malek, tirou de letra a difícil missão de encarnar Mercury, ele transmitiu bem a enigmática, porém excêntrica persona que Freddie era. O ator é tão expressivo que consegue transmitir diversos sentimentos com um simples olhar.
 O carisma de Rami só perde para sua incrível presença de palco, apesar de optado por dublar as canções (por motivos claramente óbvios). Sua interpretação vai muito além da aparência (que foi levemente alterada para se assemelhar com a de Freddie), todos os trejeitos do cantor foram replicados, assim como toda a dominância que ele tinha no palco. É simplesmente lindo ver o brilho em seu olhar durante uma cena de show, ou produzindo os álbuns em estúdio de gravação ou até mesmo escrevendo as músicas.
 Apesar de Rami Malek se destacar, seus colegas de elenco também não ficam para trás Gwilym Lee também fez um excelente trabalho como Bryan May, ele foi capaz passar toda a vibe tranquila que May tem, Ben Hardy que interpreta Roger Taylor nos mostra um lado mais rebelde e atrevido de Taylor e Joseph Mazzello encarna John Deacon de um modo bem ardiloso.  
 A história nos mostra um pouco da busca incessante de Freddie por alguém para amar, e como a vida de celebridade pode muitas vezes ser solitária e sedutora. Nos mostra como ter todo o mundo aos seus pés não é suficiente, como sempre vai existir um vazio cuja a necessidade humana sempre nos fará tentar preenchê-lo de alguma forma.
 As cenas de apresentações da banda são arrasadoras tanto da perspectiva do público como da banda.
 Bohemian Rhapsody emociona de uma forma como só Freddie Mercury foi capaz de emocionar, com sinceridade, amor e sofrimento. Ele colocar em poesia a mistura louca e emocional que foi o Queen, e nos faz entender o que tornou a banda um fenômeno. O que os diferenciava era o fato deles serem, parafraseando o próprio Mercury, serem "Quatro desajustados que não pertencem juntos, tocando para outros desajustados, para os exilados bem no fundo da sala, que têm certeza de que eles não pertencem também." 
  Mostrando uma história de uma família, que assim como todas tinha seus atritos, seus altos e baixos, mas que foi unida por algo maior: um amor a música e ao público. 


domingo, 14 de outubro de 2018

Crítica: Nasce Uma Estrela


  Quando a ideia de fazer um novo filme  com a história de Nasce uma Estrela surgiu muito acharam que não daria certo. Fazer uma quarta versão de um filme que já foi muito aclamado, na certa não daria certo. Quando surgiu em 2002 a ideia original era ter Will Smith e alguma estrela como protagonistas e Joel Schumacher como diretor, na época a escolha para ser par com Smith estava entre Alicia Keys e Jennifer Lopez, porém essa ideia acabou não se concretizando e o projeto foi guardado. Muito tempo depois ele foi parar nas mãos de Nick Cassavetes, que seria responsável pela direção, com Beyoncé como favorita para protagonizar. Em 2011, o projeto mudou de mãos novamente e dessa vez foi para Clint Eastwood, oficialmente com Beyoncé, entretanto devido a sua gravidez ela acabou rompendo os planos para o filme. O assunto só voltou a ser falado novamente quando Bradley Cooper obteve os direitos para dirigir o filme no lugar de Clint, com foco das negociações apontando para Lady Gaga como protagonista.
Tudo isso já seria motivo o suficiente para desistir dessa "ideia de louco", mas quando Eddie Vedder (vocalista do Pearl Jam) em pessoa te diz pra desistir, você tem que desistir certo? Errado. Bradley Cooper foi em frente e fez o filme mesmo com todos contra. E devendo das graças aos céus pela persistência dele.


  Se fosse preciso escolher uma palavra para definir o primeiro trabalho de Cooper em uma palavra, essa palavra não poderia ser outra além de Ousadia, e percebemos isso quando vemos que seu nome está cada canto do filme (Bradley não só dirige e protagoniza o filme como também, produz, roteiriza, canta e ainda participou das composições das músicas.)
  Se a personagem Ally (Lady Gaga) é responsável pelo título do filme, Jackson Maine (Bradley Cooper) está no caminho totalmente oposto. Em seu papel ele interpreta um cantor de meia idade que tem diversos problemas com vícios que escondem um dramático passado.
Logo no primeiro encontro, Bradley & Gaga transbordam química, isso fica claro na primeira vez que Jackson vê Ally performando La Vie En Rose, o olhar na cara de Cooper transmite esperança, encanto, paixão e muito mais.
 O filme equilibra bem o tom dramático das  "cenas musicais" (que a propósito, são tão realistas que te arrepiam completamente (e o mérito disso vai em parte para Gaga, que fez questão de ter suas cenas cantadas ao vivo.)
 A direção de Cooper foi certeira e dinâmica, ele equilibra bem o filme entre o drama e as cenas musicais, com algumas pitadas de comédia e uma boa dose de romance.
 Se nos primórdios de sua carreira de atriz Lady Gaga (ou Stefani, como você preferir) foi criticada por muitos que diziam que ela era melhor cantora do que atriz, aqui ela quebrou paradigmas, fazendo jus ao seu Globo de Ouro (vencido por sua performance que dividiu opiniões em American Horror Story: Hotel) ela prova que é sim uma atriz nata. Quando vemos Ally em cena quase nos esquecemos de quem a interpreta, ela conseguiu transmitir toda a inocência, pureza e força da personagem de um jeito único e cativantes, só lembramos de é ela mesma quando Ally começa a adentrar o mundo Pop da música. Suas performances musicais no filme são responsáveis pelos arrepios que o filme causa (que vão do início ao fim). Desde a primeira vez que ouvimos a voz de Gaga temos uma experiência completamente catártica (seja quando ela canta Over the Rainbow completamente a capela ou com a própria La Vie En Rose, ainda mais com Shallow e nos dilacera o coração com I'll Never Love Again).


 O filme mostra bem aquela velha história de Hollywood de que enquanto alguém está cada vez mais no topo, outro está cada vez mais no fundo do posso. (Enquanto a carreira Ally ascende como uma estrela, a de Jackson decai cada vez mais.)
Assim também é o relacionamento de Ally & Jackson, que apesar de ser repleto de amor (não só um pelo outro, mas também pela música em si) e de cumplicidade (o que faz com que eles sejam melhores juntos) prova tristemente que o amor nem é o bastante para salvar alguém.
 O filme é em si um espetáculo completo.
A fotografia do filme capta bem o clima da performance, tanto pela perspectiva do artista como também a do público.
 As músicas cativam, arrepiam e emocionam o tempo todo.
 O roteiro, apesar de repleto de clichês,  funciona, com alguns diálogos emocionantes, mas poucos tão impactantes, o filme nos dá o que promete: um romance sobre duas estrelas, que mesmo seguindo caminhos opostos, encontram uma razão maior em comum para ficar juntos e fazer darem certo (o que nos faz perceber que alguns clichês são inesquecíveis, e às vezes necessários para tornar grandes histórias grandes.)
 Nasce Uma Estrela prova que uma história atemporal pode ser contada repetidamente desde que seja contada pelas vozes certas e novas.
Clipe da música Shallow cantada por Bradley e Gaga no filme